Ao contrário do filósofo de Königsberg, Hegel confessa uma verdadeira paixão pelas artes. No seminário protestante de Tübingen (1788 - 1793), onde faz amizade com Hölderlin e Schelling, lê os trágicos gregos, Shakespeare e os poetas alemães contemporâneos, Schiller e Goethe. Em Heidelberg e, depois, em Berlim, freqüenta teatros e concertos, visita exposições, admira Bach, Haendel, Gluck, Mozart, Rossini. Crítico, mostra-se severo, até mesmo injusto, com os pintores e músicos contemporâneos: nenhuma palavra sobre eles Beethoven, nem sobre Caspar Rauch Friedrich. Ignora o escultor Christian Rauch e a escola de Berlim. Rietschel, autor das estátuas de Gluck, Mozart, Goethe e Schiller, não é nem mencionado. Estranha indiferença pela arte do presente que contrasta com seu interesse pela arte do passado: a pintura holandesa especialmente, Van Eyck, Memling, Rembrandt; os vitrais das catedrais, Colônia, Bruxelas; as cidades, Viena, Paris! Kant sedentário, fascinado pelas belezas da natureza. Hegel nômade na Europa do começo do século XIX, tem olhos apenas para a beleza artística.
Evocou-se anteriormente as reservas de Hegel em relação ao emprego da palavra "estética". Se a usa é por falta de outra melhor e porque o termo, doravante, passou a ser usual. A expressão "filosofia da arte" é, na verdade, mais adequada ao seu propósito.
O BELO: UM "GÊNIO AMISTOSO"
Desde a introdução da Estética, Hegel precisa sua intenção: trata-se de mostrar que a filosofia da arte "forma um anel necessário ao conjunto da filosofia". Não é questão de elaborar uma metafísica qualquer da arte, mas de partir do "reino do belo", do "domínio da arte". E convém incluir essa filosofia do belo ao conjunto do sistema filosófico.
Do quê fala? Das belezas diversas próprias às diferentes artes, específicas às obras particulares? Mas face a tal diversidade, seria impossível constituir uma ciência tendo alguma validade universal. É preciso, então, partir da Idéia de belo. É dela que se deduz as belezas particulares, e não das belezas particulares que se deduz o conceito. Hegel aprova Aristóteles: há apenas ciência do geral!
Curiosamente, evoca Platão e cita seu diálogo com Hippias maior: "Deve-se considerar não os objetos particulares, qualificados de belos, mas o Belo." É, todavia, uma das raríssimas concessões ao platônico. Platão não hesitava em criticar a arte e seu caráter ilusório, aparente, cópia medíocre do mundo ideal. Para Hegel também, a arte é aparência, mas essa "aparência" é real. É a manifestação sensível, perceptível do que os homens, os povos, as civilizações conceberam graças ao seu espírito e exprimiram graças à criação de obras de arte concretas. O belo existe aqui e em todo lugar ao redor de nós. Intervêm, diz Hegel, "em todas as circunstâncias da vida" como esse "gênio amistoso que reencontramos em todo lugar".
E - não é para nos espantarmos - o único belo que o interessa é o belo artístico, o das produções humanas, excluindo-se o belo natural. Por que? Simplesmente porque o belo artístico é sempre superior ao belo da natureza. É uma produção do espírito, e o espírito "sendo superior à natureza, sua superioridade se comunica igualmente aos seus produtos, e por conseqüência, à arte[2]".
Hegel pode dificilmente ser mais claro do que quando declara: "A pior idéia que atravessa o espírito do homem é melhor e superior que a maior produção da natureza, e isso justamente porque participa do espírito e que o espiritual é superior ao natural[3]."
Uma das conseqüências dessa superioridade incontestável do espírito é que a arte não poderia ter por objetivo imitar a natureza. Hegel toma aqui radicalmente o contrapé da tradição aristotélica em vigor na arte ocidental.: "Pretendendo que a imitação constitua o objetivo da arte, que a arte consiste, por conseqüência, em uma imitação fiel do que já existe, coloca-se em suma a lembrança na base da produção artística. É privar a arte de sua liberdade, de seu poder de expressar o belo[4]."Ora, o objetivo da arte não é de satisfazer a lembrança, mas de satisfazer a alma, o espírito.
Basta retroceder no curso do tempo para se perceber que o "gênio amistoso" sempre manteve relações privilegiadas com a religião e com a filosofia. A arte sempre simbolizou, representou, figurou o sentimento religioso do homem ou sua aspiração à sabedoria. É graças aos vestígios artísticos das civilizações e das culturas antigas, às estátuas, aos monumentos, aos mosaicos, etc., que podemos reconstituir o que foram, então, as idéias e as crenças que animavam os homens das épocas anteriores. Se a arte interessa a tal ponto Hegel, é porque expressa a vida do espírito e permite a essa vida ser sentida, percebida graças às obras.
[1] In: L'Autonomie esthétique, Du Criticisme au romantisme, p. 181
sobre G.W.F. Hegel: Introduction à l'Esthétique, Aubier, Paris, 1964.
Tradução de Mirian Magda Giannella
[2] G.W.F.Hegel, Esthétique, op. cit., t.I, p. 8.
[3] Ibid.
[4] Ibid., t.I, p. 34.
[5] Ibid., p. 77.
[6] Ibid., t.II, p. 65.
[7] Ibid., p. 67.
[8] Não cocnfundir as formas particulares correspondendo às idades simbólica, clássica e romântica, e as formas individuais designando as cinco artes, aquitetura, escultura, pintura, música, poesia.
[9] Esthétique, op.cit., t.III, 2ª parte, p.9.
[10] Ibid., p. 15-16.
[11] Ibid., t.II, p. 340.
[12] Ibid., p. 335. Sublinhado por nós.
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